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8 de Março de 2021

Max Weber e o Espírito do Capitalismo

Resenha de trecho do livro

Rafael Erthal, Estudante de Direito
Publicado por Rafael Erthal
há 2 anos


Autor: Rafael Erthal Corrêa de Sá

Resenha do texto “A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo”, de Max Weber[1]

Questão fundamental para entender o ponto principal dessa obra de Max Weber é o conceito de “espírito do capitalismo”, que é desenvolvido pelo autor ao longo das páginas objeto desta resenha. Já no início da exposição, Weber afirma que esse conceito é bastante fluido, e que não almeja conferir um significado unívoco ao termo, autorizando demais autores a conferir acepções distintas.

Weber delineia provisoriamente o que vem a ser o “espírito do capitalismo” nas páginas iniciais de sua exposição. Para isso, se utiliza de passagens de Benjamin Franklin, trechos em que este autor expõe sua visão sobre a utilidade do dinheiro e sua absoluta escassez, demonstrando também um aspecto moral por trás do tratamento – um ethos relacionado ao capitalismo. Em que pese a exposição de Franklin parecer ser meramente utilitarista, ela carrega consigo valores fundamentais para a compreensão do ethos capitalista, e obviamente de seu “espírito”.

Citando uma passagem da Bíblia, Weber invoca Franklin novamente, observando que o homem só seria digno se fosse exímio em sua profissão – elencando aí um aspecto moral importante, a vocação, e não somente aquele utilitarista descrito anteriormente. Na verdade, o lucro é oriundo da profissão digna, exercida com excelência, não sendo considerado um fim em si mesmo. O trabalho é visto como “dever”, e não como um sacrifício.

Contestando Marx, Weber defende que o “espírito” do capitalismo apareceu muito antes do desenvolvimento desse sistema econômico. Ao contrário de Marx, que considerava as relações econômicas como “infraestrutura” que moldava as demais instituições, Weber afirma que acontece justamente o contrário: é a cultura anterior, “espiritualmente capitalista”, que moldou e produziu as relações capitalistas.

O espírito do capitalismo, ao longo de seu desenvolvimento, teve de travar batalhas contra instituições pré-estabelecidas, desde a Antiguidade Clássica até a Idade Média, quando finalmente pode desabrochar, com o surgimento do embrião da burguesia. A auri sacra fames (a fome sagrada por ouro) era combatida no período medieval, principalmente no âmbito de influência dos mandamentos canônicos, e na verdade sempre foi presente na história da humanidade, muito antes do capitalismo moderno (novamente, contrariando a teoria de Marx).

Uma das grandes barreiras ao “espírito do capitalismo” foi o tradicionalismo que dominava muitas mentalidades à época, principalmente no campo econômico e comercial. Por tradicionalismo econômico-social, entende-se, por exemplo, o costume de trabalhar somente para ganhar o sustento absolutamente necessário, diametralmente oposto ao objetivo capitalista moderno de lucro, de excedente de capital. Com efeito, o capitalismo moderno teve de, antes de impor seu sistema, criar um novo imaginário moral que pudesse direcionar o comportamento dos indivíduos – sejam eles empresários ou proletários – para que obtivesse sucesso como sistema econômico.

O principal leitmotiv invocado por Weber para justificar o espírito do capitalismo é a vocação, entendida como um chamamento (do latim, vocare) para que o indivíduo faça determinada coisa em sua vida. Nesse sentido, há intrínseca ligação entre o ensino religioso e essa “vocação” estabelecida, de forma a abandonar a atividade econômica como simples suprimento das necessidades básicas de cada indivíduo. Há, portanto, um caráter transcendental na atividade capitalista produtiva.

A ética protestante à época, após as Reformas, foi campo fértil para a justificação religiosa do capitalismo, emergindo com a nova classe burguesa da época. Em que pese ligeiras diferenças entre os segmentos religiosos protestantes, invariavelmente tendiam a não proscrever, e até a incentivar, o acúmulo de capital, desde que fosse na forma da lei (divina, inclusive). Em contrapartida ao acúmulo de capital pelos novos burgueses, havia a doação de quantias consideráveis para os institutos eclesiásticos por esses mesmos indivíduos – uma forma de expiação das ações impuras durante a vida.

O mérito do capitalismo como sistema, na época, foi criar o imaginário moral, mantida a racionalidade, que pudesse justificar o modo de vida produtivo que adquiria crescente importância. Os grandes pensadores do capitalismo obtiveram sucesso em conferir racionalidade a uma atividade aparentemente irracional – a de acumular riqueza além do necessário. A Weber interessa justamente a investigação desse elemento irracional que habita o espírito do capitalismo, que está relacionado à “vocação” citada anteriormente.

Posteriormente, Weber analisa os diferentes segmentos do protestantismo, extraindo de cada um deles sentido para o espírito capitalista. No capítulo “ascese e capitalismo”, o autor analisa as manifestações religiosas arautas do capitalismo à época. Para Lutero, por exemplo, a posição social era definida por Deus, como vontade divina, devendo então o indivíduo permanecer nela. Já na visão puritana, a especialização do trabalho seria divina pois serviria ao bem comum, ao maior número possível de indivíduos.

O puritanismo, nesse sentido, parece ser mais bem vocacionado para explicar o espírito do capitalismo, pois enxerga razão na especialização do trabalho. Seria o trabalho profissional, vocacionado, a ascese necessária à adjudicação divina.

A ascese, no texto de Weber, é tratada como fundamental para se entender a ética protestante. Justamente pelo fato de ser irracional a visão do trabalho como um fim em si mesmo, a ascese profissional surge como explicação racional e idônea para a questão, num ponto de interseção com o espírito do capitalismo.

Weber finaliza o trecho concluindo que somente com a análise histórica da ascese intramundana é que se poderia extrair a medida do significado desse termo para o protestantismo.


[1] WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, pp. 41-69 e 142-167.

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